segunda-feira, 12 de abril de 2010

UM CORPO QUE CAI (1958)


Porque "Vertigo" não fez sucesso entre crítica e público no ano em que foi lançado? Porque a atuação de Kim Novak não teve sua merecida homenagem por ser umas das mais intensas da história da sétima arte? E porque a icônica trilha sonora de Bernard Herrman, para essa película é apenas restrita à admiradores de Hitchcock, diferentemente da popular trilha que compôs em "Psicose"? Todas respostas são resumidas em um ponto. Devido a genialidade de um homem que a frente de seu tempo, criou um clássico absoluto da sétima arte.

Desde as incríveis imagens em espiral do crédito inicial, até o surpreendente pesadelo do personagem de James Stewart. O roteiro envolvente conta a história de John Scottie, um detetive recém aposentado, graças a sua acrofobia (medo de altura). Durante uma perseguição, Scottie fica pendurado no telhado e tenta ser socorrido por um colega policial. Fatalmente o homem perde o equilíbrio e morre. O detetive então se sente culpado pela morte do policial que tentou lhe ajudar. Contudo, na ociosidade de sua aposentadoria, Scottie consegue um bico, com um antigo conhecido de faculdade. Gavin Elster (Tom Helmore) propõem ao recém aposentado detetive, que ele siga sua bela esposa Madeleine (Kim Novak), afim de descobrir o que a moça anda fazendo enquanto ele está ausente. Segundo Elster desconfia, sua esposa está possuída por Carlota Juarez, bisavó da mulher.

Mesmo cético com as palavras do conhecido, Scottie resolve investigar a mulher e portanto passa a segui-la. A primeira vista, a esposa de Elster bem transborda excentricidade com suas constantes visitas a um cemitério, um museu e um hotel. Os pontos apresentam significativos aspectos em comum; em todos locais mencionados, Carlota Juarez está presente de alguma forma. No cemitério Madeleine visita a sepultura da bisavó; no museu ela passa horas admirando o retrato pintado de Carlota; e por fim, se hospeda no hotel que antes era residência de sua admirada falecida.

Após uma tentativa de suícidio na Baia de São Francisco, Scottie resgata Madeleine da água, e acaba se apaixonando pela bela moça. A mulher passa a ficar mais angustiada e não para de repetir seus atordoantes devaneios ao homem que acabara de conhecer. Subitamente a paixão se torna recípocra, até que um dia em um ato de angústia, Madeleine se joga de uma torre. Devido sua fobia, Scottie não consegue segui-la até o alto da construção, e pela segunda vez acaba se responsabilizando pela morte de alguém. Deprimido o homem é internado em estado de choque, e conta somente com a visita de sua admiradora não muito secreta Midge (Barbara Bel Geddes).

Nesse ponto Hitchcock cria uma linha para dividir o segundo personagem de Kim Novak. Surge então Judy Barton, uma mulher idêntica à Madeleine. Desconfiado e obsessivo, Scottie a persegue afim de descobrir sua verdadeira identidade, já que a semelhança com a falecida amada é extrema. Nesse ponto o espectador descobre metade do mistério do filme. Hitchcock então deixa o suspense um pouco de lado, para focar a obsessão que Scottie tem pela sósia de Madeleine. Ele lhe compra novas roupas e pede para que ela pinte o cabelo de loiro, já que Judy é morena. Apaixonada pelo ex-detetive, porém frustrada e enciumada com Madeleine, Judy obedece rigorosamente aos pedidos do amado.

Ok, para quem não viu o filme, acredito que o ponto final desse texto seja aqui, pois a partir de agora escreverei alguns SPOILERS que podem acabar com a surpresa dessa obra;

Scottie descobre que Judy é a mesma pessoa que Madeleine, quando ele vê o colar vermelho que era de Carlota Juarez. A jóia era um presente que Gavin tinha dado à moça, já que Judy não era sua mulher verdadeira, e sim uma sósia de sua esposa, na qual ele a matara. Para forjar uma testemunha de suicídio, Gavin contratou Scottie já sabendo de sua fobia por altura. Por isso usara a alta torre de uma igreja espanhola para finalizar o crime perfeito. Lançou sua verdadeira esposa de cima da construção, para simular um falso suicídio, sabendo que Scottie jamais subiria até o fim.

Talvez o desfecho de "Um Corpo que Pai" seja o melhor climax que o cinema já produziu em mais de cem anos de existência. O diálogo angustiante entre Scottie e Judy revelando toda a trama por trás de Madeleine, acaba com um caloroso abraço e um suposto perdão por parte do ex-detetive. Além de sua cura para a acrofobia que lhe acometia.

Eis que surge um dos mais icônicos e misteriosos finais do cinema, quando a sombra de uma freira aparece para o casal. Judy se assusta com a sombria silhueta e fatalmente cai do mesmo local onde supostamente Madeleine teria se jogado.

Hitchcock magistralmente trata o filme com cuidados e detalhes dignos de um mestre sistemático. Seu fascínio por espiral pode explicar algumas cenas da películas, como o penteado de Madeleine que coincide com o do quadro de Carlota, e o lance de escadas da torre onde ocorre os fatos mais importantes do filme, atordoando os espectadores (de forma positiva é claro).

Cada cinéfilo com sua interpretação para o simbólico desfecho. No meu ponto de vista acredito que a película antes de tratar de um crime ou um romance, mostra o transtorno de um homem (tanto é que o nome original do filme é "vertigem"). Tal enfermidade demonstrada pelo protagonista se resume ao seu medo diante à altura. Intrépido nos segundos iniciais da trama, o detetive logo se acovarda diante de seu medo. Já nos segundos finais, sua fobia se esvaira e traz a tona novamente aquele heróico detetive que perseguia marginais fugitivos. Hitchcock simplesmente tratou de mostrar o transtorno de Scottie, pontuado por um intrigante história sobre uma misteriosa mulher. A espiral, que remete tontura devido a vertigem, desnorteia o protagonista da trama, mesmo em momentos que não está nas alturas. Pateticamente, Judy é morta de forma metafórica, tal qual a torturosa acrofobia de Scottie. O sino tocado pela freira representa a redenção e cura do personagem.

Como dezenas de teorias, tracei a minha, independente se estiver certa ou não. Apenas sei que para uma obra ser considerada de qualidade, antes de mais nada precisa cativar seu apreciador, mesmo após o término da experiência. "Um Corpo que Cai" é uma prova concreta de que esse tipo de arte existe e transcede às telas de cinema, para o imaginário do espectador. Isso é definição para obra-prima.

2 comentários:

Camila Beserra disse...

o q realmente significou a entrada da freira tocando aquele sino no final? imaginei diversas explicações, mas realmente n sei... será q o criador dessa obra prima, num estilo quase "sheiksperiano", permitiu que o espectador chegasse a sua própria conclusão? realmente n sei. mas s esse filme é uma obra de arte, disso não tive dúvidas!

Anônimo disse...

Gostei muito da sua explicação,já pensou em fazer vídeos no YouTube explicando outros filmes !?

 

Blogroll

free counters

Minha lista de blogs